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segunda-feira, 20 de maio de 2013

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vem ter comigo





















Vem ter comigo
para que, juntos, cavalguemos a noite
a buscar a luz tão mais intensa
que nos levará ao dia
Vem ter comigo
para que velejemos o dia
em corpos mancomunados
olhos semi-cerrados
como a projetar a tarde vindoura.
Vem ter comigo
para que a mágica tarde
livre-nos de todos os males
e nos apresente mais tarde
à "AURORA BOREALIS".
Vem ter comigo
para que o cio do céu
de inveja não nos açoite
e nos encontre ciando
a mais ciante das noites.
Vem ter comigo
no fim deste dia,
prenúncio de um dia novo
antecessão de outros dias,
com noites em sucessão.
Vem ter comigo
para que o ciclo dos dias
não veja no ciclo da gente
nada novo ou diferente
de um ciclo só de paixão.
Vem ter comigo
para que, juntos,
morramos clamando vida
e para que renasçamos a cada volúpia.
Vem ter comigo
para que nossa união
seja sempre bendita
sem mácula, preconceito,
vergonha ou culpa.
Vem ter comigo
para que, corpos em ócio,
unidos, durmamos nus.
Vem ter comigo
pois, tu és meu equinócio
meu equinócio de luz.
Vem ter comigo
para que nossas asas de devaneio
conduzam-nos os corpos à realidade
e para que, minha ânsia e tua ansiedade,
tornem-se em suspiros de felicidade.
Por tudo isso
e por tudo mais que esqueço,
Vem! Vem ter comigo
Tu me mereces
e eu te mereço.


Italmar Menezes

Apologia à sabiá-laranjeira


















Apologia à sabiá - laranjeira

Essa luz que me invade não é o bastante
para amainar a angústia que me traspassa
Nem o chilreio caótico dos pardais
quer me traduzir o desejo de um bom dia.
Bom -dia, dia luzente!
Mesmo que a mim me pareça
que todos os dias são iguais:
monótonos e sombrios dias
em cujas horas hei de vagar, apático,
com a carapaça que travisto.
Pela janela que, como solícitos braços,
abre-se ao parco verde
de raras árvores de pouca fronde
umas aquí, outras acolá,
penetram, misturados à balbúrdia pardálica,
maviosos acordes alentadores.
É minha amiga sabiá - laranjeira
arguta conselheira
que, cotidianamente, nesses dias primaverís,
desperta - me com seu canto
como a querer dizer - me:
- Bom -dia, prisioneiro! Desperta para a vida!
Sim, amiga sábia...
tu, como eu, sabes que sou enclausurado
em meu próprio espírito
embora tenha me concedido Hábeas Corpus
para satisfazer alheias alegrias.
Tu, que tens do céu a garandeza como universo
e que tens por pasto a natureza,
não necessitas que te apoquentes com a psique
para que não morras de taquicardia,
a não ser que cuides para que não caias
em desumanas humanas armadilhas
e não te tornes, como eu, prisioneira.
Vai! E que o bater de tuas asas
conduza teu harmonioso cantar
a tantos quantos como eu, desajustados,
nele se façam confortar.
Vai, amiga sabiá!
Já me confortaste
e outros carecem do mesmo alento;
vai e sejas feliz, irradiando felicidade
nessa tua etérea passagem.
Quando aquí já não mais pousares
e teu canto se tornar silêncio,
ainda assim estarei te ouvindo;
e, mesmo os que não tiveram a minha sorte
de partilhar a tua cantante alegria,
ouvirão de mim, falar de ti algum dia.
Vai! Eu te desejo um bom - dia!

Italmar Menezes

Preciso de alguém



Preciso de alguém
que me faça ser educado,
que amanheça ao meu lado.
que sempre me compreenda,
se necessário, me repreenda,
dizendo sempre: - Meu amor...
Preciso de alguém
que sempre me dê coragem,
que queira seguir viagem
pra onde quer que eu vá,
sem ao menos perguntar
pra onde é que eu vou.
Preciso de alguém
que queira mudar minha vida,
que lute comigo na lida,
que me aponte os caminhos,
que queira receber meus carinhos,
que me mostre o meu valor.
Preciso de alguém
que me tenha mais que amizade,
que satisfaça minhas vontades,
que me beije com paixão,
que sempre me estenda a mão
e que tenha o cheiro da flor.
Preciso de alguém
que queira se sentir amada,
que queira ser cortejada,
cantada nos mais belos versos
e queira ser a dona do universo
e de tudo de belo que for.
Preciso de alguém
que ao me ver, me sorria,
que me mostre sua alegria
num espontâneo sorriso.
Por Deus, deste alguém eu preciso
sem demora, por favor,
pra me tirar desta angústia,
desta agonia injusta
que me oprime o peito
e que me deixa assim, deste jeito,
tristonho, tristonho, tristonho.

Italmar Menezes
FUNERAL DE UM POETA I

Acabem com um poeta
e apresentem à sua alma a conta da inumação.
Não precisa réquiem
que um poeta só prega a poesia
e, por isso mesmo, só crê no que pode ver ou sentir
para santificar pelo cunho da palavra.
Não precisa lágrimas
que a memória de um poeta, nenhum pranto lava.
Não acendam velas
que a poesia já o tornou iluminado
e ele próprio distribuiu seu lume
sem perder o brilho, sem perder o brio.
Quantos de vocês, impiedosos homicidas,
não se deleitaram com seus feitos
antes que suas imundas mãos assassinas
liquidassem o portentoso?
Quantas vezes não lhes serviu de consolo
o laivo de seus versos
o carisma de seu universo
que, de qualquer modo, lhes amainou as angústias?
Acabem com um poeta
mas, não lhe cavem sepultura funda
que um poeta não precisa se esconder;
não lhe abram cova profunda
para que possam brotar como sementes
os despojos de sua mente
ainda que sejam para semear
um lúgubre lugar.
não precisa marcar a data
que um poeta, despropositadamente, viveu nefasto;
e jamais o digam fátuo, presunçoso,
que, em verdade, ele é virtuoso.
Acabem com um poeta
mas, não lancem ao vento o que lhe era mais caro:
a palavra;
mesmo porque ele não mais lhes poderá ouvir.
Se lhes assentir o intelecto uma condolência,
sobre sua lápide, um único epitáfio:


"AQUÍ JAZ UMA CONSCIÊNCIA"

Italmar Menezes
CLÍMAX

Lentamente bamboleias;
este bambolear que arranca de mim
os cicios que te cativam.
Minhas mãos ébrias e aventureiras
vagueiam displicentes por tuas formas,
provocando frêmitos que te bolinam.
De súbito, te vejo sucumbir;
e tão intensamente, que me leva contigo.
Meu sangue borbulhante verte-se em corredeiras
que deságuam aonde então, já se tinha feito mar.
As ávidas línguas que se entrelaçam
e sorvem-se, uma à outra,
o calor febril das peles que se atritam,
o leite salgado, o fragor dos corpos torpes,
os gemidos lacônicos e plangentes,
são as evidências do clímax
deste mágico momento.
Depois o torpor...
os olhos magnetizados,
fitam-se apaixonadamente
enquanto que as mãos afagam as faces
em sinal de agradecimento.
Embevecidos, permanecemos assim...
Meu peito cheio de amor,
teu corpo cheio de mim.
Morrendo de exaustão,
quedamo-nos de lado,
contentes em saber que, de exaustão,
todos os dias, morremos para a vida.

Italmar Menezes
Galeria *

Teu rosto assim... tão paz;
teus olhos assim... tão luz;
e o tempo assim...
no tempo parado,
como a argüir do futuro
a lembrança do passado.

Por que mãos assim...
tão dádivas?
E tez assim...
tão dúvidas,
como se rogasses por nós
a remissão que não merecêssemos?

Por que semblantes assim...
tão pudicos,
como a conter a voz
do que nem mesmo disséssemos?
E como ficas assim...
imóvel e muda,
a me fitar recriminante,
no altar desta galeria
com teu olhar desconcertante
e teu rosto pálido de quem me repudia.

São teus traços justos que me afugentam
com a rapidez de quem me denuncia
e este teu ar brando que me acolhe
com o calor de quem me acaricia.

Italmar Menezes

* - Este poema dá título ao livro que num futuro poderá estar à disposição dos amantes da poesia.

O retrato

O retrato


Um jovem vaidoso, desde muito cedo admirava tudo que fosse bem feito; extasiava-se com formas perfeitas, cores vivas e bem combinadas, beleza bem distribuída.
Nesta obstinação, cresceu cuidando da própria beleza, praticando esportes a fim de obter um corpo atlético, com músculos bem definidos, visitando freqüentemente o dentista, intentando preservar o mais brilhante sorriso, gastando somas em cabeleireiros para realçar ainda mais seus atributos, enfim, fazendo o possível e o impossível no intuito de conseguir a admiração, a veneração e os comentários efusivos de todos.
Um dia, resolveu que deveria perpetuar sua beldade sob a forma de uma pintura, desde que esta fosse executada pelo mais renomado artista, pois deveria ser retratada com fidelidade a sua excelência.
Dentre os inúmeros artífices indicados ou espontâneos que se lhe apareceram, chamou-lhe a atenção um ancião de mãos trêmulas que lhe disse:
- Meu jovem senhor: ao pintar o seu retrato, dou-lhe a garantia de que você verá a perfeição.
Entusiasmado, o vaidoso o contratou, pedindo opinião sobre como se vestir, onde e como posar, ao que respondeu o ancião:
- Nada disso é necessário; apenas saia e me deixe trabalhar. Amanhã à mesma hora, durante o coquetel que o senhor proporcionará, eu lhe mostrarei a obra-prima.
Apreensivo, porém confiante, o jovem obedeceu. No dia seguinte, com o salão repleto de pessoas das mais refinadas estirpes, o ancião solicitou a atenção de todos para o memorável momento.
Ao descerrar-se a cortina, a platéia viu com assombro uma pintura mal feita, mostrando uma figura indistinta e horripilante.
Muito irado, o rapaz arremessou contra a tela o copo de bebida que tinha às mãos, proferindo exaltados insultos ao velho artesão.
Naquele momento, a tinta foi aos poucos se dissolvendo, revelando por detrás da horrível pintura, a face de JESUS. Então, disse o pintor ao jovem:
- Eu não disse que lhe mostraria a perfeição?

Italmar Menezes

* - Às vezes (na maioria das vezes), nos preocupamos tanto conosco, pensamos tanto em nós próprios, que esquecemos a verdadeira essência de todas as coisas:
DEUS.
Revolta



Marolou...

E o mar atrevido, em furor insano,

Com grande ruído, colidiu nas pedras

Gigantesco e desumano,

Para me espargir.

O vento que segredava às palmas

E encrespava as águas claras,

Bramiu rude...

Bramiu rude o leve vento

E remoinhou à minha volta

Para me tornar poento .

Ribombou...

E o trovão ousado,

Não se contendo calado,

Fremiu a terra a mim cercana

Num estrondo invulgar

Para me assustar.

Relampejou...

E o fulgente raio,

Cortando a tarde escura

Numa pressa de afligir,

Desceu à minha procura

Para me ferir.

Depois choveu...

Mas, não se fez a borrasca;

A chuva branda que se deu

Veio apenas me lavar

do pó, medo e ferida

E daquela tarde sofrida

que se ocultava no além-mar.

Arrependido,

Roguei a comiseração da natureza,

que, não se abstendo de frieza,

brandiu suas armas contra mim,

entretanto, evitando me golpear

Porque, contra ela blasfemei, sim ,

Quando jurei não te amar.



Italmar Menezes

A noite

A noite

É noite ...
e os olhos felinos já mudam de cor;
As mentes ensaiam as festas do amor.
É noite...
sorria, que a noite é condescendente
e os neuróticos estão a se recolher.
Antes que a poeira do estresse se assente,
é preciso saber o que fazer.
Se apresse,
se livre do estresse,
a noite é o caminho;
se agite
que a noite é o caminho
pr´um papo e um chopinho;
o mais, é o que rola.
Deixe que a noite disso se encarregue.
Não tema,
a noite é o esquema
pra tudo dar pé.
Se apronte,
Não perca um instante,
vai lá, vai na fé!
Tem gente na cola.
Essa é a noite,
se envolva,se entregue;
sorria,
ria, que a noite tem pressa.
Amanhã, outro dia
e o dia não interessa.
Sorria,
ria, que cura a ressaca da gente;
Amanhã, a azia
num dia efervescente.
Sorria!
Ria, que a noite é tardia
e eu quero acordar ao seu lado
pra lhe fazer mais uma folia,
declamar uma poesia,
olhá-la de um jeito safado
e lhe desejar um bom-dia!
Sorria!
sorria!

Italmar Menezes